Entendendo o Diabetes Mellitus -

Entendendo o Diabetes Mellitus

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No Brasil 12,5 milhões de pessoas têm o diagnóstico. A prevalência da doença é algo em torno de 8 a 9% da população e deixa o nosso país no 4° lugar no ranking mundial em número de afetados, atrás de China, Índia e Estados Unidos. Em 2018 a estimativa da OMS eram 16 milhões de brasileiros com este diagnóstico. Dados mais recentes divulgados pela ONG Diabetes atlas apontam que existem 463 milhões de adultos com diabetes em todo o mundo, sendo o tipo II responsável por cerca de 90% dos casos. O diabetes está entre as 10 principais causas de morte no mundo, com quase metade ocorrendo em pessoas com menos de 60 anos.

Com estes números, pode-se afirmar, sem medo, que o diabetes é uma epidemia global e vários fatores desempenham papel importante para este crescimento, entre eles destaco três: obesidade, sedentarismo e alimentação inadequada. Você tem algum destes?

O diagnóstico do Diabetes Mellitus se faz através de exames e sintomas. A avaliação  glicemia de jejum com valor maior ou igual a ≥126 mg/dL ou valor maior ou igual a 200mg/dL após 2 horas da ingestão de 75g de glicose no teste de tolerância oral, ou ainda hemoglobina glicada maior ou igual a 6,5% são diagnósticos da doença. Se o paciente apresenta sintomas clássicos de hiperglicemia  ou crise hiperglicêmica com uma glicose aleatória maior que 200mg/dL, também define diagnóstico. Mas, se o paciente não apresenta sintomas clássicos, deve-se ter dois testes positivos para definir o diagnóstico de diabetes.

Valores entre 100 – 125 mg/dL na glicemia de jejum, 140-199 no teste de tolerância oral à glicose e hemoglobina glicada entre 5,7-6,4%, já colocam o paciente na posição de maior risco para a doença.

A Diabetes Mellitus é uma doença caracterizada pela elevação da glicose no sangue (hiperglicemia), excesso de açúcar.

A grande maioria das pessoas acredita que só terá diabetes aquelas pessoas que comem açúcar em excesso, mas isso não é verdade! A DM ocorre, em uma grande maioria de pessoas, por vários mecanismos alterados ao mesmo tempo. Comer açúcar em demais, lembrando que os carboidratos entram nessa balança pois se transformam rapidamente em açúcar quando absorvidos, causa uma resistência do nosso metabolismo em interpretar a informação de que tem excesso de glicose na corrente sanguínea. Para entender melhor esse mecanismo vou fazer uma analogia com o café. Se você é um tomador diário de café forte não seve sentir os efeitos colaterais do excesso de cafeína como taquicardia e falta de sono, porque os seus receptores corporais estão tão acostumados com a substância que não são mais sensibilizados, necessitando de cada vez mais café para você ter esses efeitos estimulantes. Na diabetes os receptores celulares não estão mais sendo ativados pela insulina, da mesma forma que eram antes, para abrir a porta para a entrada de açúcar para dentro da célula, fazendo com que a glicose aumente de concentração na corrente sanguínea. Esse mecanismo alterado damos o nome de RESISTÊNCIA À INSULINA, ou seja, a redução da captação de glicose para os metabolismos intracelulares.

A consequência dessa falha reflete no pâncreas, nosso órgão responsável por secretar a insulina através de suas células ß-pancreáticas, que com o passar do tempo começa a ter a sua secreção deteriorada. O final dessa falha é a necessidade de começar a usar a insulina exógena através de injeções diárias para o controle da glicemia, já que seu corpo vai parar de produzir a quantidade necessária para seu funcionamento.

Os mecanismos interligados relacionados a falta de insulina para sinalizar a abertura dos receptores celulares ou receptores sem mais sensibilidade para ser abrirem, causam um acúmulo de glicose no sangue e falta de açúcar dentro das células. Isso mesmo, a corrente sanguínea estará com altas concentrações de açúcar, porém as células estarão sinalizando para nosso metabolismo que estão precisando de açúcar para produzir energia! Olha que situação difícil! Nesse momento teremos um aumento da produção hepática de açúcar (neglicogênese – o fígado utilizará outros substratos como a gordura para formar glicose) aumentando ainda mais a quantidade de glicose no sangue. Os rins começaram uma jornada intensa de reabsorção de açúcar, ou seja, não deixarão que moléculas de glicose sejam eliminadas pela urina, trazendo-as de volta ao sangue circulante. Aumentam também outros mecanismos de lipólise (quebra de gordura para formar glicose) e por isso diabéticos descontrolados ou muito avançados costumam perder muito peso em pouco tempo.

Ainda se observa o aumento da produção de glucagon, um hormônio responsável por buscar mais açúcar no metabolismo e jogar na corrente sanguínea aumentando as concentrações de glicose. E para completar, teremos a redução dos efeitos incretínicos, ou seja, o estímulo dos hormônios produzidos pelo trato gastrointestinal e liberados quando ingerimos alimentos e estes chegam ao intestino, não são mais tão eficientes para sinalizar a necessidade de secreção de insulina.

Viram só? São muitos mecanismos que contribuem para o mal controle do açúcar corporal. Claro que o papel do excesso da ingesta vai aumentando a chance dessas alterações ocorrerem. Portanto, preste atenção na informação abaixo para o diagnóstico do pré-diabetes, o melhor momento para começar a tratar com bom prognóstico.

E sobre as dúvidas mais frequentes a respeito da diabetes, uma das mais comentadas é sobre o consumo de carboidratos. Entende-se até hoje que um dos grandes problemas da alimentação do diabético está na ingesta de carboidratos e açúcares, alimentos que estimulam a secreção de insulina e que aumentam a quantidade de açúcar no sangue. Para você ter uma ideia o carboidrato é o nutriente que tem maior efeito sobre a glicemia, 100% do que é ingerido se transforma em glicose, a proteína, por exemplo, entre 30% e 60%, pode ser transformado e a gordura, somente 10%. Portanto, quando se é diagnosticado com essa doença é essencial entender como esses alimentos agem em nosso metabolismo, a quantidade por porção que pode ser ingerida e as possíveis substituições alimentares para os carboidratos de alto índice glicêmico.

As substituições por alimentos não industrializados já ajudarão muito no seu controle do açúcar, escolha a batata, inhame, macaxeira, ao invés do arroz branco e do macarrão. E tome cuidado com o cuscuz e a tapioca que têm bastante quantidade de carboidratos! Então, se você é diabético ou está na faixa do pré-diabetes, procure um nutricionista para descobrir quantas calorias você deve ingerir por dia para manter-se saudável.

Muitos são as complicações do Diabetes Mellitus, porém, vale ressaltar que uma glicemia bem controlada diminui as chances de desenvolver doenças em órgãos alvos. Um dos locais mais afetados pelo excesso de açúcar no sangue são os rins, cuja principal função é a filtração do sangue. Com a sobrecarga de açúcar os rins acabam perdendo moléculas de proteínas para urina, a chamada microalbuminúria, na fase avançada a complicação é considerada doença renal terminal que necessitará de transplante do órgão ou sessões regulares de hemodiálise. O acúmulo de glicose no sangue também causa danos nos nervos, a neuropatia, que pode causar formigamento, dor, fraqueza e perda de sensibilidade. Esta última pode dificultar a percepção de calor, frio ou algum machucado levando a formação de úlceras de difícil cicatrização e passíveis de amputações devido à má circulação periférica do paciente diabético. Outro órgão muito atingido são os olhos. Pessoas com diabetes têm 40% mais chance de desenvolver glaucoma e 60% catarata. Tem também mais chance de pele seca, coceiras e infecções por fungos e bactérias. Depois de ouvir tudo isso, não há dúvidas de que o melhor é manter-se ativo e cuidar a alimentação para não desenvolver o Diabetes, não acha?

Agora, puxando um pouco para o meu remédio preferido, existem evidências científicas consistentes dos efeitos benéficos do exercício na prevenção e no tratamento do Diabetes Mellitus. Uma das doenças que mais cresce no mundo e que pode tanto ser prevenida, como a linha de frente do tratamento é o exercício físico!

Os exercícios atuam tanto na prevenção, principalmente nos grupos de maior risco (obesos e os familiares de diabéticos), como agem de forma específica sobre a resistência insulínica. Outros papeis importantes do exercício no quadro de Diabetes são a redução do peso corporal, que, por si só, já reduz o risco da doença, suas comorbidades como a hipertensão e a dislipidemia, e ainda diminui o risco cardiovascular.

Algo que pode ser um novidade para você: o melhor exercício para o controle da diabetes é aquele realizado com sobrecarga, como a musculação, o treinamento funcional e crossfit. Só caminhar vai ajudar um pouco, mas não muito.

Enquanto que na maioria dos casos as pessoas com pré-diabetes ou já diabéticos utilizam-se de caminhadas no intuito de controlar a doença, a melhor forma de fazê-lo é promovendo o aumento da massa muscular. O músculo maior e mais ativado possui mais receptores para entrada de glicose na célula e também aumentam o gasto energético corporal basal, necessitando de maior produção de energia intracelular. Portanto, para controlar a DM você precisa ficar forte! Você pode estar se perguntando: “Mas e as caminhadas?” Então, as caminhadas podem continuar acontecendo, melhorarão a circulação sanguínea e você pode contemplar a natureza e fazer um relex mental e só.

E um alerta indispensável para quem já faz tratamento para o diabetes: é muito importante o controle glicêmico antes e depois do exercício bem como o planejamento multidisciplinar da sua rotina de treinamentos. Se você é diabético não se aventure a fazer exercícios físicos sem uma boa avaliação prévia!

Agora se você quer mesmo passar longe dessa doença, é necessário que, o quanto antes, você faça escolhas alimentares mais adequadas, utilizando menos açúcar industrializado na dieta e buscando ingerir mais alimentos naturais, e, é claro, realizando exercícios de resistência.


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Dra. Clarissa Rios

Médica e educadora física

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