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EXECÍCIOS FÍSICOS APÓS INFECÇÃO POR COVID-19

Tiro Uma Jovem Mulher Musculosa Sportswear Trabalhando Com Personal Trainer  — Stock Photo © MilanMarkovic #416137324

Se você foi infectado pelo SARS-COVID 2 e desenvolveu a doença pode estar se perguntando se pode e quando deve retomar, ou não, as atividades físicas corriqueiras e ao treinamento físico de moderada e alta intensidade. Este artigo vai direcionar você quais cuidados devem ser tomados no pós-covid em relação ao exercício físico.
Cientistas pelo mundo todo, têm estudado o exercício como fator preventivo para o desenvolvimento de diversas doenças crônicas e também agudas como o COVID. Já se tem evidências de que ele é uma ferramenta importante no desenvolvimento da imunidade. Não se sabe ainda, exatamente, os mecanismos através dos quais o exercício interfere positivamente reduzindo o mecanismo de cascata inflamatória, protegendo nosso corpo de doenças, porém, o Colégio Americano de Ciências do Esporte (ACSM) através do projeto “Exercise is Medicine”, tem acumulado evidências de que o exercício é remédio para o tratamento e prevenção de diversas doenças.
A infecção pelo SARS-COV 2 é multifacetada, diferente em cada organismo e com desfechos ainda não bem definidos. Especula-se que pode haver uma relação genética que em alguns indivíduos protege do desenvolvimento de formas graves e de outros proporciona sintomas agressivos e evoluções rápidas. E, ainda, já se sabe que após passar pelo ciclo do vírus, mesmo que de forma branda, muitas pessoas ainda apresentarão sintomas por vários meses. A este fato está se nomeando “Síndrome pós COVID-19”. Entre os sintomas persistentes temos: fadiga aos pequenos esforços, fala de ar, tosse seca persistente, dores articulares, musculares e no peito, alterações de ritmo cardíaco, glicemia e pressão arterial, perda ou disfunções do olfato e paladar, problemas de memória, concentração e sono, erupções cutâneas ou queda de cabelo.
Embora saibamos que os pulmões são o órgão alvo da infecção por SARS-COV 2, o vírus é capaz de se acumular em diferentes órgãos, incluindo o coração, vasos sanguíneos, rins, intestino, cérebro e as terminações nervosas musculares. Inclusive, um recente estudo realizado com eletroneuromiografia e biopsia da musculatura intercostal encontrou uma elevada concentração do vírus nessa localização, o que dificulta o impulso nervoso, bem como, fadiga essa musculatura, acarretando em uma sensação de falta de ar, que na verdade é uma dificuldade de expansão da caixa torácica (devido ao acometimento da musculatura que auxilia na respiração) e não, efetivamente, a disfunção da troca gasosa.
Por essas e outras situações relevantes da infecção pelo SARS-COV 2, alguns ajustes serão necessários para o treinamento físico pós covid-19.

Segue abaixo as recomendações atuais:

  1. Em curso do quadro viral não realizar esforços físicos de moderada ou alta intensidade, permanecendo em repouso domiciliar, independente da gravidade dos sintomas.
  2. Com sintomas brandos limitar-se a caminhadas leves com períodos de descanso, em domicílio, nos primeiros dias e, se boa evolução, a passar para exercícios de mobilidade articular, e aumento do tempo de caminhada. A partir do 10º dia, se permanência dos sintomas leves, retomar a prática de exercício físico com supervisão do profissional de educação física.
  3. Com sintomas moderados (presença de tosse, fadiga, falta de ar ou febre), não realizar esforços físicos, restringindo-se as atividades de higiene pessoal e demandas de baixa energia em domicílio. Qualquer sinal de piora no quadro necessitará de avaliação médica em unidades hospitalares. Se houver evolução gradativa para melhora, após uma semana do final dos sintomas, retomar com os esforços de baixa intensidade, preferencialmente com exercícios respiratórios, ativação muscular e aeróbicos leves (caminhada, corrida ou exercícios aquáticos).
  4. Com sintomas graves [pacientes que necessitaram de oxigenioterapia e internação hospitalar] deverão retornar as atividades de baixa intensidade somente após 30 dias do final dos sintomas e após reavaliação médica. Os exercícios deverão ser progressivos em intensidade e volume, respeitando as condições de base e os sintomas persistentes. Não se deve voltar a realizar esforços físicos sem avaliação médica e sem acompanhamento de um profissional.
  5. Para indivíduos com altos níveis de exercício físico, prévios à infecção, independente da gravidade dos sintomas, é indicada avaliação médica com cardiologista, realização de exame de esforço físico supervisionado (teste ergométrico ou ergoespirométrico), e retorno ao treinamento com redução de 30% do volume e 50% da intensidade em que se encontrava antes da doença. A progressão do treinamento também deve ser realizada em uma escala mais branda do que de costume.

Estas são algumas considerações importantes que devem ser levadas em consideração.


Forte abraço a todos.

Uso de máscara durante a prática de exercício físico na pandemia do COVID-19

Será que utilizar máscaras durante a prática de exercícios físicos pode comprometer a nossa saúde?

Decidi escrever um pouco sobre o sistema respiratório para explicar a vocês como acontecem as nossas trocas gasosas e o que implica a utilização da máscara para nossa fisiologia ventilatória.

Para começar é interessante sabermos que o ar que respiramos não é composto por 100% de oxigênio. A atmosfera terrestre é envolta por gases que contém cerca de 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e outras porções pequenas de gases como o argônio e gás carbônico. Nosso sistema respiratório é responsável por captar esse oxigênio da atmosfera, realizar a troca gasosa dentro dos pulmões e liberar o gás carbônico para o meio externo.

Você pode estar tentando lembrar agora o que acontece com esse CO² que emanamos para a atmosfera. Não seria lógico que a concentração desse gás fosse maior ainda no ar que respiramos?

Aí entra a ação das nossas árvores e vegetais. O processo de fotossíntese realizado por eles através da absorção da luz solar, captação de gás carbônico e água, é capaz de produzir glicose. Essa formação ocorre através da quebra da molécula de água, liberando o oxigênio para a atmosfera e utilizando o hidrogênio que sobra para unir-se ao gás carbônico e formar a glicose, reduzindo drasticamente, as concentrações de CO² da atmosfera. 

Ainda relembrando as aulas de biologia do ensino fundamental, o sistema respiratório é formado por um conjunto de órgãos: boca, nariz, faringe, laringe, traqueia, brônquios, bronquíolos e alvéolos. O ar entra pela naso/orofaringe e segue pelo trato respiratório até a chegada aos alvéolos pulmonares que em contato com a membrana respiratória permitem as trocas de O² e CO² que ocorrem por diferença de pressão dos gases. Assim, de modo bem didático e simplificado, chega através das veias, sangue com alta concentração de CO², vindo de todo o corpo, para receber O² proveniente da atmosfera e sair em direção novamente ao metabolismo artérias com sangue com alta concentração de oxigênio. Assim, permitindo que toda as atividades metabólicas corporais sejam realizadas de forma adequada. A esse processo dá-se o nome de hematose.

Bom, e o que isso tem a ver com o uso de máscara durante a prática de exercícios físicos na pandemia do COVID-19?

Muitas pessoas têm perguntado se a máscara atrapalharia a respiração e prejudicaria a saúde durante o esforço físico. A resposta é sim. Certamente colocar qualquer barreira frente ao nariz e a boca tanto dificultará a entrada de oxigênio no sistema respiratório, como prejudicará a eliminação de gás carbônico. A retenção de CO² dentro da máscara deverá acontecer todavia a quantidade é pequena e não impacta na capacidade das trocas gasosas. Portanto, o que precisamos entender é que essa dificuldade não implicará em grande efeito no processo respiratório e que, em atividades de intensidade baixa e moderada, não comprometerá o seu desempenho.

O mesmo não é verdadeiro quanto pensamos em atividades extenuantes, de grande intensidade, como as realizadas por atletas de elite. Nesses casos nos quais a ventilação aumenta muito e a necessidade de trocas gasosas é altíssima, as máscaras certamente impactarão em dificuldade para respirar e na piora do desempenho esportivo.

Ainda acredito ser importante entender que durante o exercício físico o aumento da ventilação constrói um ambiente mais quente em nossa face provocando o aumento das secreções nasais. Isso provoca um desconforto e, muitas vezes faz com que tenhamos necessidade de manipular a máscara, o que, com certeza, pode aumentar o risco de infecção pelo coronavírus já que podemos entrar em contato com as mucosas da boca e olhos durante esse processo.

A própria umidade causada pelo suor e respiração também acarreta em perda da barreira bacteriana da máscara podendo aumentar o risco de infecção.

Claro que o tecido utilizado na confecção da máscara será responsável por piorar ou melhorar esses problemas. Uma das indicações internacionais para a prática de exercícios físicos em ambientes externos seria a utilização de máscaras full-face ou bandanas como as que são comuns para atletas que realizam exercícios em ambientes extremos. Contudo, elas apesar de melhorar a ventilação porque são abertas na parte inferior, podem aumentar o risco de infecções.

Outro tipo de máscara que está sendo muito comentada é aquela utilizada pelos atletas de elite para simular o treinamento em altitude. Teoricamente esse dispositivo produziria no metabolismo o mesmo efeito que treinar sobre condições de ar rarefeito (com baixa concentração de oxigênio). Quando a disponibilidade de O² é menor nosso corpo aumenta a produção de hemácias, as células corporais carregadoras de oxigênio, no intuito de melhorar as trocas gasosas. Contudo, estudos com diversos tipos dessas máscaras comprovaram que esses efeitos fisiológicos não acontecem. O que realmente proporcionará essa máscara é uma resistência à ventilação, melhorando a musculatura respiratória, que terá que produzir muito mais força para conseguir manter uma boa ventilação. Então, apesar de não causar efeitos significativos para a melhora da performance física, na minha opinião, podem melhorar a musculatura auxiliar da respiração tendo impacto nos esportes aquáticos, por exemplo, bem como na qualidade de vida dos pacientes com doenças pulmonares obstrutivas e restritivas.

Enfim, o que seria mais interessante nesse momento crítico?

Apesar de vários profissionais da área de infectologia e fisiologia acreditarem que o exercício físico realizado em ambientes muito ventilados tem pouquíssima chance de aumentar a contaminação pelo coronavírus, e que nem necessitariam de uso de máscaras se fosse respeitadas distâncias maiores de 1,5 metros entre os praticantes, nesse momento, em diversos locais do Brasil, a recomendação é praticar o máximo de exercícios dentro de casa ou em locais fechados, e, se sair, usar máscara do tipo caseira.

Em resumo, primeiro você deve saber se no seu município está permitida a prática de exercícios físicos ao ar livre. Se estiverem, o uso de máscaras é indicado e não impactará de forma significativa no seu rendimento, a não ser que se estiver realizando exercícios de alta intensidade.

Exercícios em ambientes fechados como estúdios de treinamento físico personalizado a máscara está indicada para alunos e professores e deve ser trocada caso a transpiração seja excessiva e o dispositivo fique muito úmido. Lembrando também que se houver a necessidade da troca, a máscara usada deve ser acondicionada dentro de um envelope de papel, preferencialmente, e as mãos devem ser higienizadas antes de colocar a próxima máscara. 

Então agora, ajuste o melhor dispositivo se for para a rua ou faça o treino em ambiente fechado e seguro, ou, fique em casa, mas com certeza você deve continuar a praticar exercícios físicos durante a quarentena.

Referências:

THE STRAITS TIME SPORT – https://www.straitstimes.com/sport/experts-see-rationale-for-mask-exemption.

Desai AN, Aronoff DM. Masks and Coronavirus Disease 2019 COVID19).  JAMA. 2020;323(20):2103. doi:10.1001/jama.2020.6437

Posicionamento da SBMEE sobre exercício e COVID-19, disponível em: http://www.medicinadoesporte.org.br/