Uso de máscara durante a prática de exercício físico na pandemia do COVID-19 -

Uso de máscara durante a prática de exercício físico na pandemia do COVID-19

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Será que utilizar máscaras durante a prática de exercícios físicos pode comprometer a nossa saúde?

Decidi escrever um pouco sobre o sistema respiratório para explicar a vocês como acontecem as nossas trocas gasosas e o que implica a utilização da máscara para nossa fisiologia ventilatória.

Para começar é interessante sabermos que o ar que respiramos não é composto por 100% de oxigênio. A atmosfera terrestre é envolta por gases que contém cerca de 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e outras porções pequenas de gases como o argônio e gás carbônico. Nosso sistema respiratório é responsável por captar esse oxigênio da atmosfera, realizar a troca gasosa dentro dos pulmões e liberar o gás carbônico para o meio externo.

Você pode estar tentando lembrar agora o que acontece com esse CO² que emanamos para a atmosfera. Não seria lógico que a concentração desse gás fosse maior ainda no ar que respiramos?

Aí entra a ação das nossas árvores e vegetais. O processo de fotossíntese realizado por eles através da absorção da luz solar, captação de gás carbônico e água, é capaz de produzir glicose. Essa formação ocorre através da quebra da molécula de água, liberando o oxigênio para a atmosfera e utilizando o hidrogênio que sobra para unir-se ao gás carbônico e formar a glicose, reduzindo drasticamente, as concentrações de CO² da atmosfera. 

Ainda relembrando as aulas de biologia do ensino fundamental, o sistema respiratório é formado por um conjunto de órgãos: boca, nariz, faringe, laringe, traqueia, brônquios, bronquíolos e alvéolos. O ar entra pela naso/orofaringe e segue pelo trato respiratório até a chegada aos alvéolos pulmonares que em contato com a membrana respiratória permitem as trocas de O² e CO² que ocorrem por diferença de pressão dos gases. Assim, de modo bem didático e simplificado, chega através das veias, sangue com alta concentração de CO², vindo de todo o corpo, para receber O² proveniente da atmosfera e sair em direção novamente ao metabolismo artérias com sangue com alta concentração de oxigênio. Assim, permitindo que toda as atividades metabólicas corporais sejam realizadas de forma adequada. A esse processo dá-se o nome de hematose.

Bom, e o que isso tem a ver com o uso de máscara durante a prática de exercícios físicos na pandemia do COVID-19?

Muitas pessoas têm perguntado se a máscara atrapalharia a respiração e prejudicaria a saúde durante o esforço físico. A resposta é sim. Certamente colocar qualquer barreira frente ao nariz e a boca tanto dificultará a entrada de oxigênio no sistema respiratório, como prejudicará a eliminação de gás carbônico. A retenção de CO² dentro da máscara deverá acontecer todavia a quantidade é pequena e não impacta na capacidade das trocas gasosas. Portanto, o que precisamos entender é que essa dificuldade não implicará em grande efeito no processo respiratório e que, em atividades de intensidade baixa e moderada, não comprometerá o seu desempenho.

O mesmo não é verdadeiro quanto pensamos em atividades extenuantes, de grande intensidade, como as realizadas por atletas de elite. Nesses casos nos quais a ventilação aumenta muito e a necessidade de trocas gasosas é altíssima, as máscaras certamente impactarão em dificuldade para respirar e na piora do desempenho esportivo.

Ainda acredito ser importante entender que durante o exercício físico o aumento da ventilação constrói um ambiente mais quente em nossa face provocando o aumento das secreções nasais. Isso provoca um desconforto e, muitas vezes faz com que tenhamos necessidade de manipular a máscara, o que, com certeza, pode aumentar o risco de infecção pelo coronavírus já que podemos entrar em contato com as mucosas da boca e olhos durante esse processo.

A própria umidade causada pelo suor e respiração também acarreta em perda da barreira bacteriana da máscara podendo aumentar o risco de infecção.

Claro que o tecido utilizado na confecção da máscara será responsável por piorar ou melhorar esses problemas. Uma das indicações internacionais para a prática de exercícios físicos em ambientes externos seria a utilização de máscaras full-face ou bandanas como as que são comuns para atletas que realizam exercícios em ambientes extremos. Contudo, elas apesar de melhorar a ventilação porque são abertas na parte inferior, podem aumentar o risco de infecções.

Outro tipo de máscara que está sendo muito comentada é aquela utilizada pelos atletas de elite para simular o treinamento em altitude. Teoricamente esse dispositivo produziria no metabolismo o mesmo efeito que treinar sobre condições de ar rarefeito (com baixa concentração de oxigênio). Quando a disponibilidade de O² é menor nosso corpo aumenta a produção de hemácias, as células corporais carregadoras de oxigênio, no intuito de melhorar as trocas gasosas. Contudo, estudos com diversos tipos dessas máscaras comprovaram que esses efeitos fisiológicos não acontecem. O que realmente proporcionará essa máscara é uma resistência à ventilação, melhorando a musculatura respiratória, que terá que produzir muito mais força para conseguir manter uma boa ventilação. Então, apesar de não causar efeitos significativos para a melhora da performance física, na minha opinião, podem melhorar a musculatura auxiliar da respiração tendo impacto nos esportes aquáticos, por exemplo, bem como na qualidade de vida dos pacientes com doenças pulmonares obstrutivas e restritivas.

Enfim, o que seria mais interessante nesse momento crítico?

Apesar de vários profissionais da área de infectologia e fisiologia acreditarem que o exercício físico realizado em ambientes muito ventilados tem pouquíssima chance de aumentar a contaminação pelo coronavírus, e que nem necessitariam de uso de máscaras se fosse respeitadas distâncias maiores de 1,5 metros entre os praticantes, nesse momento, em diversos locais do Brasil, a recomendação é praticar o máximo de exercícios dentro de casa ou em locais fechados, e, se sair, usar máscara do tipo caseira.

Em resumo, primeiro você deve saber se no seu município está permitida a prática de exercícios físicos ao ar livre. Se estiverem, o uso de máscaras é indicado e não impactará de forma significativa no seu rendimento, a não ser que se estiver realizando exercícios de alta intensidade.

Exercícios em ambientes fechados como estúdios de treinamento físico personalizado a máscara está indicada para alunos e professores e deve ser trocada caso a transpiração seja excessiva e o dispositivo fique muito úmido. Lembrando também que se houver a necessidade da troca, a máscara usada deve ser acondicionada dentro de um envelope de papel, preferencialmente, e as mãos devem ser higienizadas antes de colocar a próxima máscara. 

Então agora, ajuste o melhor dispositivo se for para a rua ou faça o treino em ambiente fechado e seguro, ou, fique em casa, mas com certeza você deve continuar a praticar exercícios físicos durante a quarentena.

Referências:

THE STRAITS TIME SPORT – https://www.straitstimes.com/sport/experts-see-rationale-for-mask-exemption.

Desai AN, Aronoff DM. Masks and Coronavirus Disease 2019 COVID19).  JAMA. 2020;323(20):2103. doi:10.1001/jama.2020.6437

Posicionamento da SBMEE sobre exercício e COVID-19, disponível em: http://www.medicinadoesporte.org.br/


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Dra. Clarissa Rios

Médica e educadora física

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