Hormônio de crescimento emagrece? - Dra. Clarissa Rios

Hormônio de crescimento emagrece?

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O sistema endócrino é o grande maestro no nosso metabolismo. A partir da secreção hormonal regula o funcionamento dos órgãos e, com certeza, está diretamente ligado ao processo de armazenamento ou queima de energia.

Entre os vários hormônios produzidos em nosso corpo, destacarei neste texto o GH – Human Growth Hormone (Hormônio de Crescimento) ou Samatotropina, muito falado nos dias atuais como um importante acelerador do processo de emagrecimento. Liberado em maior quantidade durante a noite, apresenta diversos pequenos picos diários a depender do nível de atividade física e da alimentação do indivíduo. Como sempre escrevo um pouquinho sobre a fisiologia, lá vai… Sua liberação é controlada por um hormônio hipotalâmico, o GHRH (“Growth Hormone Release Hormone”). Este, por sua vez, estimula a porção anterior da hipófise a liberar o GH. Este terá ação sobre o fígado que produzindo pequenas proteínas chamadas de somatomedinas, ou fatores de crescimento semelhantes à insulina (IGF-I e IGF-II conhecidos como: “Insulin-like Growth Factor”), atuando sobre os ossos, músculos e o tecido adiposo.

Suas principais funções são:

  • Aumento de captação de aminoácidos e da síntese proteica e redução da quebra das proteínas;
  • Acentuação da utilização de lipídios e diminuição da utilização de glicose para obtenção de energia;
  • Estimulação da reprodução celular (crescimento tecidual);
  • Estimulação do crescimento da cartilagem e dos ossos;
  • Atua positivamente na qualidade do sono, no humor e em processamentos cognitivos;

Muitas pessoas tem utilizado o GH para aumentar a hipertrofia e reduzir gordura corporal. De fato isso funciona. A mais de três décadas o GH foi sintetizado e é utilizado para o tratamento de diversas doenças relacionados ao crescimento. Devido aos seus efeitos potencializadores do crescimento muscular, bem como sua característica lipolítica, tem sido utilizado para o tratamento da obesidade no intuito de reduzir o tecido de gordura, bem como no processo de envelhecimento buscando melhorar a massa muscular, com bons resultados. Contudo, utilizar de forma exógena algo que é produzido por nosso metabolismo, nunca reproduzirá os mesmos efeitos. A liberação dos hormônios apesar de ter uma relação forte com nosso ciclo circadiano, também é influenciada diretamente por nossas atividades do dia a dia e, então, apresenta uma melhor variação natural de secreção. Isso não acontece quando é prescrito de forma medicamentosa. Ademais, nosso metabolismo tem complexidades que ainda não são conhecidas pela ciência! O mesmo GH está sendo estudado por um grupo de pesquisadores da USP que já descobriu um efeito que pode interferir negativamente no processo de emagrecimento. Em uma pesquisa com camundongos chegaram à conclusão que a perda de peso desencadeia o aumento dos níveis de GH, o que de certa forma parece bom, mas não é bem assim. Os maiores níveis de GH no hipotálamo ativam neurônios chamados AgRP, que dificultam a perda de peso porque aumentam a sensação de fome. Esta função seria semelhante a executada por outro hormônio conhecido como “Hormônio da Saciedade”, a Leptina.

Os dados estão descritos no artigo Growth Hormone regulates neuroendocrine responses to weight loss via AgRP neurons (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6368581/pdf/41467_20 19_Article_8607.pdf). Os pesquisadores acreditam que o sinal cerebral para a fome é o próprio GH.

Como se pode ver há controvérsias sobre o uso, bem como seus benefícios e desvantagens. Muito ainda precisará ser estudado e testado para ser considerada uma estratégia segura para o emagrecimento. Mas, há formas de se estimular a produção de GH que, com certeza, contribuirão para o seu processo de emagrecimento, começando pelo exercício físico!

Fato que precisa ser destacado aqui é que o
exercício físico é o mais poderoso estimulador
da produção de GH, bem como modula a sua
atividade e característica molecular.

O exercício provoca uma disruptura homeostática estimulando a liberação de hormônios como GH, IGF-1, testosterona e estradiol. Na verdade até mesmo os fatores psicológicos e a antecipação ao esforço já estimulam o aumento dessa secreção. A ativação catecolaminérgica reduz a insulina, aumenta o glucagon e o GH e, será tanto maior quanto mais intenso for o exercício. Isso, por sua vez, também estimulará a produção de opiáceos
endógenos, que inibem a produção de somatostatina pelo fígado, um hormônio que reduz a liberação de GH.

A prescrição do treino quando voltado para aumentar o GH deve ser realizado iniciando-se por estimulação de grandes grupos musculares e depois o trabalho mais isolado (pequenos grupos musculares). O GH começa a aumentar com 10 minutos de exercício e o pico máximo ocorre por volta dos 50 minutos e permanece mais alto até 2 horas de pós treino.

Para quem quer ganhar mais massa muscular é interessante treinar com intervalos pequenos entre uma série de exercício e outra já que o aumento do lactato e dos Íons de hidrogênio livres são sinalizadores para a produção hormonal que estimula a hipertrofia. Ademais, exercícios de característica muito aeróbia e de baixa intensidade ofertarão ácidos graxos (lipólise) como fonte de energia e pouparão o glicogênio. Esse excesso de lipídios inibirá a produção de GH. Na mesma lógica, excesso de gordura na alimentação pré-treino também reduzirá a produção de GH durante o exercício. Outra dica interessante para as pessoas que estão querendo ganhar massa muscular é utilizar o treinamento de força com oclusão. Uma técnica já reconhecida de aumento da estimulação da hipertrofia muscular e aumento da secreção de GH, com a redução do fluxo sanguíneo para a musculatura durante o exercício.
O “Jejum Intermitente” também estimula a produção de GH (prometo que escreverei em breve sobre esse assunto), assim como o consumo de carboidratos ante de dormir aumenta a quantidade de insulina na corrente sanguínea e reduz a produção noturna de GH.

Destaco por fim, a diminuição da secreção de GH e sua associação com o envelhecimento. Por muito tempo ele foi considerado o segredo para a juventude. Porém, sabemos que a queda desse hormônio é inevitável com o passar dos anos (em torno de 25%) a cada década, chegando-se a terceira idade já com quantidade ínfima disponível. Ele contribui para as alterações de qualidade de sono, acúmulo de gordura e perda de massa muscular e óssea.

Depois de toda essa conversa, a dica mais importante sobre o Hormônio de Crescimento, no momento é: faça a sua parte (exercício intenso + alimentação saudável) para mantê-lo em quantidades elevadas no seu metabolismo e desfrute dos benefícios que ele produz de forma natural.


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Dra. Clarissa Rios

Médica e educadora física

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